Dois anos depois, a fênix ressurge

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por Carolina Werneck

12 de fevereiro de 2012. O Cine Teatro Ouro Verde, marco da cultura londrinense, enfrentava o capítulo mais triste de sua história – um incêndio, que começou devido a um problema na fiação, e consumiu em poucas horas os 50 anos de aplausos ali encerrados. Dois anos depois, os órfãos do Ouro Verde ainda sonham com o dia em que aquele palco voltará a ser o centro da atividade cultural na cidade.

Inaugurado em 1953 com projeto do arquiteto J. B. Vilanova Artigas, o Cine Teatro Ouro Verde era o retrato de uma economia em expansão e de uma cultura que, ainda hoje, pulsa com intensidade em Londrina. Da época de ouro do café no norte do Paraná, o Teatro herdou não apenas a majestade, mas também o próprio nome. O ouro verde que brotava na zona rural permitia à elite londrinense desfrutar de um espaço sem sinônimos, mesmo nas grandes cidades do país, como lembra Urias Alves, ex-proprietário da Papelaria Central, que durante 19 anos teve como endereço um prédio a 50 metros do Teatro. “Eu servi o exército em 1952 no Rio de Janeiro e, mesmo lá, não havia um cinema da magnitude do Ouro Verde”, ele lembra, e ainda parece encantado com a beleza e o tamanho do lugar. Aimê Alves, casada com Urias há 53 anos, explica que o Ouro Verde foi palco de muitas lembranças de quando os filhos ainda eram pequenos. “Nós levávamos as crianças às matinês e, aos finais de semana, elas ficavam com a minha sogra enquanto nós assistíamos a concertos da Osuel e a peças de teatro”.

A história da família cruza muitas vezes com a história do Teatro. A filha, Ângela, lembra-se de ter visto no Ouro Verde obras como “Branca de Neve”, “Dumbo” e “E.T.”, quando ainda era criança. “Assisti ao Jô Soares no palco do Ouro Verde, também a inúmeras peças do Filo [Festival Internacional de Londrina] e me apresentei lá duas vezes, com a escola de dança do ventre. Era fantástico. As possibilidades que o palco te dava para criar eram muito diferentes”. Desde que o Ouro Verde pegou fogo, as apresentações da companhia de dança da qual ela participa se dividem entre o Teatro Marista e a Funcarte.

Rafael Alves, neto do casal, diverte-se ao lembrar que “o Teatro sempre foi como o quintal de casa, porque a loja dos meus avós era ali na esquina. Brinquei muito em frente ao Ouro Verde – e também me lembro de ter visto muitos filmes ali”.

Os órfãos do Ouro Verde

Com um dos maiores acervos de partituras do país, a Orquestra Sinfônica da UEL (Osuel) tinha no Ouro Verde um espaço à altura de sua grandeza. Roney Marczac, violinista da Osuel desde os 12 anos de idade, conta que a Orquestra “usava o Teatro como se fosse uma extensão da própria casa, porque foi o palco que a apresentou para a sociedade em Londrina”.  Hoje, sem o Ouro Verde, os músicos buscaram abrigo em outros pontos da cidade, promovendo concertos em lugares como o Zerão e o Moringão. Anfiteatros como o auditório da OAB e do Sesc também são usados pela Osuel para as apresentações, mas não oferecem a estrutura adequada. “São espaços pequenos, para algo entre 80 e 120 pessoas, o que naturalmente dificulta bastante o trabalho que a gente faz com a divulgação da música”, lamenta Marczac.

O Balé de Londrina, que fez sua estreia no palco do Ouro Verde em 1993, também sofre com a falta daquele que foi berço da companhia. Para Leonardo Ramos, diretor do Balé e ex-secretário de Cultura da cidade, “a maioria das grandes estreias dos nossos trabalhos aconteceu lá, projetos ligados à música e à dança, mesmo dentro da programação do Filo, pelo espaço que oferecia ótimas condições, mas também pela importância histórica do Ouro Verde”. Desde o incêndio, o Balé se apresenta principalmente no palco da Funcarte e, mais recentemente, assim como a Osuel, tem procurado usufruir de espaços alternativos, como o Zerão e o Moringão. O Ouro Verde, para Ramos, “é uma artéria importantíssima na vida cultural de Londrina, até pela relação forte de carinho que a população tem com o espaço do Teatro”.

Renascimento

Depois de alguns problemas no processo de licitação, a Regional Engenharia assumiu a reconstrução do Ouro Verde, projeto que foi iniciado em janeiro deste ano e deve ser finalizado em 2015. José Pedro da Rocha Neto, proprietário da construtora e engenheiro responsável pela reconstrução, explica que a obra contará com 18 etapas – uma para cada mês de trabalho. A equipe ainda avalia as condições gerais da estrutura do Teatro. “Houve partes que não foram atingidas, como a entrada do prédio, e houve partes que foram gravemente destruídas pelo incêndio”, explica Neto, “é preciso avaliar o que pode ser aproveitado, o que tem que ser demolido e o que precisa ser reforçado, afim de permitir a segurança das pessoas no futuro”. De acordo com o engenheiro, o ritmo das obras segue o cronograma previamente estabelecido e não deve registrar atrasos. A estrutura do Ouro Verde será mantida quase completamente, e as únicas mudanças significativas são para que se amplie a parte cênica e o número de assentos do Teatro.

Enquanto os operários trabalham na reconstrução do Ouro Verde, a cultura e a população de Londrina torcem para que o público possa finalmente voltar a aplaudir de pé o grande espetáculo que é a própria história do Teatro.