Ela me faz chorar, mas é uma delícia

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O ambiente é hostil. Não se pode movimentar muito, cada farfalhar de planta dirige a si mesma o olhar rápido e desconfiado de um primitivo homem das cavernas. Ele não tem nenhuma arma disponível a não ser sua própria coragem e uma pedra. Esta que, pouco tempo depois, seria alvo de um projeto de criminalização por um outro homem das cavernas que ali morava, um tal de Cunhahaha (lê-se o “hahaha” como aquela manifestação gutural típica dos símios). No fim não deu em nada, porque chegaram à conclusão que pedra não era arma branca, afinal, as que tinham ali na região eram todas cinzas.

Mas ele ainda estava com a pedra empunhada esperando sabe-se lá o quê. Nenhum animal se aproximou, e ele, cansado de esperar, avistou um agrupamento de hastes compridas e verdes saindo do chão. Chegou bem perto e, por instinto, puxou para cima a estranha reunião de fitinhas verdes. No momento seguinte o homem primitivo estava contemplando uma maçã branca. Eles sabiam o que era maçã, e faziam questão de não esquecer, afinal, eles tinham medo de comer a fruta e darem de cara com aquele senhor de barba branca botando todo mundo pra correr mais uma vez.

Mordeu. O sabor não era agradável. Olhou para dentro e viu que aquela maçã não era igual às outras. Tanto encarou a fruta mordida que começou a lacrimejar. Não sabia explique o porquê; talvez tivesse despertado dentro de si algo que ainda desconhecia. “Sabia que ia acabar ficando muito sensível trocando a pintura rupestre por Romero Britto”, pensou. “Talvez eu esteja com remorso de ter arrancado essa fruta do chão”, refletiu enquanto as lágrimas rolavam pelo rosto. Quando conseguiu parar, levou para casa.

“E você me traz uma fruta que te fez chorar, seu imbecil?”, esbravejou a mulher do homem primitivo. Bom, o xingamento explica o motivo deles serem chamados de primitivos. “Não sei o que me deu”, começou a explicar o sujeito, “mas em cima dela tinham esses pequenos caules verdinhos que pareciam o cabelo daquele menininho meio careca que mora na caverna vizinha. Como ele chama mesmo?”. Ao passo que a mulher, já se preparando para sair dali, respondeu: “Cebolinha”. Ela decidiu finalmente ir embora, mas não sem antes resmungar um “Idiota, agora eu vou ter que achar alguma coisa pra gente comer. Vê se pode, trazer uma fruta que faz chorar. Você acha mesmo que essas coisas que você trouxe pra casa vão dar pra janta?”.

Algum tempo se passou e já escurecia quando a mulher entrou novamente na caverna, dessa vez segurando consigo uma cesta rústica repleta de frutas e verduras. Foi quando ela encontrou o marido fritando aquela fruta esbranquiçada e picada, graças a uma pedra afiada, em formato de flor. “O que significa tudo isso?”, perguntou a mulher. “Bom, nosso vizinho ainda é criança e chama Cebolinha. Isso aqui é grande, então vou chamar só de cebola”, o homem falava sem sequer desviar a atenção da frigideira de barro. “E o que você está fazendo?” “Uma Bloomin’ Onion!”.