HumanoChef, parte I

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A televisão estava mal das pernas e caminhava tal qual um pirata sem sua perna de pau. Os grandes nomes não mais figuravam entre o panteão que religiosamente aparecia na telinha. Silvio Santos, apesar da avançada idade, deixou a sensação em todos de que havia partido ainda muito cedo. Vinte anos depois do falecimento do apresentador ainda lançavam dinheiro para a plateia, não mais em formato de avião, mas sim de dirigíveis biosustentáveis. Um conjunto de fotografias dos grandes nomes de outrora construiu o chamado Muro das Televisões. Hebe Camargo fora canonizada como Padroeira da TV Brasileira.

Depois de tentarem ressuscitar a Banheira do Gugu pela décima-sétima vez, estrelando apenas uma gostosa nua e uma marciana, alguém em antigos arquivos e descobriu duas pérolas: mais um episódio perdido de Chaves e o MasterChef. Aqui cabe uma explicação do porquê o programa encontrou seu fim depois de 64 edições: presos nos Alpes após um acidente de avião, o público não achou de bom tom a prova para ver quem cozinhava melhor a perna do amigo e decidiram então encerrar as atividades.

Resolveram ressuscitar o original, mas com as características um pouco diferentes, mais ou menos como bolsa de marca vendida em camelô. Agora iria se chamar “HumanoChef”. A ideia do programa era simples: tal qual o original, que se propunha a pegar um cozinheiro e transformá-lo em um chef de cozinha, a reedição buscava um ser humano normal para fazer dele um exemplo de pessoa. Um Zé viraria um Superman – cheio de moral, bons costumes, enfim, alguém a ser inspirado. As provas consistiriam em avaliar cada um durante o dia-a-dia. Tudo isso, claro, enquanto eles cozinhavam uma coisa ou outra no estúdio para justificar o “Chef” no nome.

Eu estava desempregado e o prêmio máximo era uma gorda quantidade de dinheiro. Nada mais interessante nessa época de vacas magras. Tão magras estavam que só davam leite em pó. Eu estava tão sem dinheiro que pedi emprestado dois reais do Seu Jão, um morador de rua que mora debaixo de uma ponte aqui perto. Eu estava tão sem dinheiro que pra devolver os dois reais do Seu Jão eu tive que parcelar a dívida em 10 vezes. Quando eu via uma loja de R$1,99 eu pensava: “mas por que tão caro?”. Entrei na competição sem nem pensar no primeiro lugar, mas estaria contente em receber qualquer cachê da emissora que ia transmitir o programa.

A seleção foi rigorosa. Já na fase de pré-seleção, o candidato a entrar no programa preenchia uma ficha imensa, mas que ainda assim era menos cansativa do que aquela requisitada para ser atendido num pronto-socorro. A parte mais criteriosa e decisiva residia na pergunta: “Qual seu maior defeito?”. Aqui, contavam pontos a honestidade e a capacidade de reconhecer os próprios erros, o que, convenhamos, são características comuns a apenas 0,7% dos seres humanos. Encontrar alguém com essas qualidades ao mesmo tempo é mais difícil do que ganhar na loteria e ser acertado por 3 raios. No mesmo dia.

Os participantes eram confrontados um a um. Ali já começaram as gravações. Três jurados, antropólogos com uma excelente mão para a cozinha, faziam um delicioso rodízio de grosserias. Jacques era um francês com dificuldades de falar português. Sofía, argentina, era um excelente contraponto para avaliar brasileiros. O terceiro e último avaliador antropochef era brasileiro e atendia pelo apelido de Empadão. Quando questionado, justificava: “Venho de uma família onde todo mundo tinha apelido de comida. Começou com meu tataravô que na época dele, por causa de política, era chamado de Coxinha. Minha mãe, deus a tenha, era a Dona Empadinha. São todos ‘inha’, mas como eu sou a ovelha negra da família, virei Empadão”, revelou, em uma entrevista. Na primeira etapa, muitos foram desclassificados rapidamente.

– Pô – O antropochef Empadão segurava uma folha de sulfite toda preenchida – você fala Zap Zap? Tá fora, meu.

– Vem cá, queridinha – A edição do programa era ligeira, a cena agora era de Sofía conversando com uma moça bem arrumada – Você falou que tem insônia, pero falou también que fica no celular até às quatro da manhã. Você não acha que tem alguma coisinha errada aqui não?

– Ah, acho… – A moça estava acanhadíssima.

Así não dá!

Agora era vez de Jacques.

– Você querrr ganharrr dinheirrro sem sairrr de casa? – O sotaque era carregado no francês. – Vá trabalharrr! Tá querrrendo o quê?

Rapidamente foram mostrados outros casos, sem muito tempo para fôlegos.

– Você disse aqui na ficha que odeia que escrevam seu nome errado. Pô, ninguém tem culpa que você tem nome de pobre, Handrielen. Próximo!

– Aqui tá escrito que você odeia a humanidade. Estoy vendo que és una gótica, mas vem cá, você por algum acaso és o quê? Uma gansa? No, no, no.

– Comparrrtilhou foto de págines de interrnê que usa personagem famoso parrra fazê piades sem grrraça. Pode entrrrarrr o prrróximo.

A edição mostrou a definição de desapontado ao filmar a cara do candidato em um close dermatológico. Rapidamente o corte seguiu para os três jurados conversando entre si.

– Estarrr difícil.

– É, meu, fácil não tá não. O outro vem aqui participar do programa e fala Zap Zap? Pô, não dá.

– Eu vi eso. Foi logo depois de um admitir que escrevia “Feice”. O povo perdeu la noción.

Mais um corte no vídeo. Eu era o próximo da fila. Lembrei de como eu me senti na hora. Um calafrio subiu a espinha, a tensão tomou conta do meu corpo. Eu vi todas as humilhações de perto, e de repente me arrependi de ter respondido à pergunta “qual seu maior defeito?” com um sincero “eu sou escritor de crônicas e às vezes fico ouvindo a conversa dos outros no metrô ou na fila do supermercado só para ver se pego alguma história no ar. Se for engraçadinha, ótimo, se for absurda, aproveito para fazer crítica social barata”. Entre um misto de sensações, eu passei para a próxima fase. No meu caso me qualificaram como “nem meio fio de cabelo de um Veríssimo, mas com certo potencial”. Agora eu seria avaliado como ser humano – e tudo que eu faço de errado seria jogado na minha cara enquanto eu tentava preparar algo ligeiramente melhor do que um miojo.

CONTINUA

Veja a continuação dessa crônica aqui: HumanoChef, Parte IIFinal