O melhor artigo de todos os tempos da última semana

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Para alegria geral do Twitter, nessa semana o mundo das notícias esteve mais cheio de polêmicas do que um dia normal no programa da Luciana Gimenez. A internet, claro, adorou temas como Boticário, parada Gay, trans crucificada, cólica menstrual vista como mimimi, redução da maioridade penal, comediante americano reclamando do politicamente correto e o vídeo de um bezerro brincando com um porquinho.

Sabe o que tem em comum o Boticário, a trans, a redução e o bambu? Dica: todas elas, menos o bambu, envolvem uma entidade grande, sem forma, e que ninguém pediu. Exatamente: a sua opinião. E a minha também, para todos os (d)efeitos. Mas e o bambu? Bom, se você não sabe essa então provavelmente está jogando aviõezinhos de dinheiro para a plateia.

O fato é que ninguém pediu minha opinião. Sério. Não teve sequer uma alma na face da Terra que olhou nos meus olhos e disse: “Hey, a internet está carente de pessoas dando pitacos sobre todos os assuntos. Por que você não expõe seu parecer?”. Pelo contrário. As redes sociais abriram um espaço gigantesco, um palco enorme para desfilar toda sorte de ideias que devem ser expressas, e isso tornou nossas páginas pessoais num enorme vídeo do Felipe Neto.

Isso é positivo? Sim. A possibilidade de dar nossa opinião é extremamente importante e ninguém pode tirar de nós a liberdade de expressão. Por outro lado, isso às vezes cria certos telefones sem fio e aí sites como o E-Farsas são obrigados a diariamente esmiuçarem todo tipo de boatos, que vão desde os mais inocentes, como o pessoal acreditando que um chinês tinha 256 anos, até os mais sérios, como espalhar pelo WhatsApp a notícia do confisco da poupança pelo Governo. Tudo não passa de mentira, claro, e esse é o problema: ninguém vai conferir. É um alívio saber da verdade, exceto quando desmentem sobre o ensaio fotográfico da Fátima Bernardes sem roupa.

Escrever um artigo opinativo colocando em xeque a validade das opiniões é arriscado. E acabo me assemelhando em muito com quem reclama no Facebook dos abusos de privacidade do Mark Zuckerberg. Fazemos tudo isso e ainda rimos do cachorro correndo atrás do próprio rabo. Mas essa é a beleza dos novos tempos, e muitos não se dão conta – hoje eu posso reclamar de um veículo no próprio veículo. E posso pedir intervenção militar numa democracia, o que é ao mesmo tempo maravilhoso e bem idiota.

Hoje todo mundo se vê compelido a se manifestar. Alguns chavões incluem “me sinto obrigado a falar sobre isso”, “eu não ia comentar sobre esse assunto, mas…” e o ápice da intelectualidade narcisista, “tenho visto muita desinformação por aí e resolvi escrever sobre isso”. Esse último pode vir de alguém que realmente entende do assunto, mas infelizmente logo será refutado por algum comentarista de portal com argumentos sólidos tal qual um “aff nada a ver esse texto”.

Esse texto aqui mesmo é bem mambembe. Vai, volta, não diz muito a que veio, mistura exemplos com piadas, enfim, parece o palco do Esquenta. Para coroar, faz diversas metalinguagens e autocríticas para tentar dar um pouco mais de graça como se fosse um Veríssimo, mas chega no máximo ao estágio de vergonhíssimo. Mas isso se deve porque esse artigo é opinativo e, assim como têm sido todas as opiniões, caminha na corda bamba. Na verdade, escrever o famoso “textão” no Facebook é igual a antiga prova da Ponte do Rio que Cai – você tenta se equilibrar mas só vai tomar bolada de todos os lados e por fim não vai chegar a lugar nenhum.

Vamos a um resumão de polêmicas. Como foi escrito lá em cima, ninguém pediu minha opinião. E se ela fosse tão boa assim, eu não tava dando, tava vendendo, embora uma coisa não exclua a outra caso você trabalhe com entretenimento para adultos. Vou girar a roleta da OPP, Opinião Por Minuto, porque assim é a internet:

Sobre a trans crucificada, se tem um pessoal que não interpretou nem a Bíblia vai interpretar manifestação artística? Neymar apareceu com uma faixa e tamanha foi a polêmica que eu achei que ele tinha roubado a da Miss Universo, mas era só “100% Jesus”.  O SBT anunciou a exibição do seriado americano I Love Lucy, da década de 50, numa tentativa malsucedida de passar alguma coisa mais antiga que o próprio patrão. Essa semana também Feliciano & Sua Turma entoaram um Pai-Nosso na Câmara Federal. Por um lado é preocupante pensar na transformação de uma das casas do povo numa casa de Deus, por outro é bom chamar a atenção do Todo-Poderoso para um lugar que ele provavelmente esqueceu que existe. Além disso, o Estado se dizer laico e puxar uma reza é semelhante ao seu amigo que se diz hétero mas a-do-ra Madonna. Além disso, querem transformar ‘cristofobia’ em crime hediondo. Então, deputado, o senhor está me dizendo que o Pai, Criador do Céu e da Terra, pode fazer qualquer coisa, pode castigar o Egito inteiro, pode abrir os mares, mas ainda assim precisa da ajuda do Congresso brasileiro pra se defender?

Ufa! Pra ser mais caça-clique e caça-polêmica do que isso só faltou o título desse artigo ser Este Colunista Se Arriscou a Falar Sobre Alguns Temas E O Que Ele Escreveu Vai Te Surpreender.

Ainda no tocante ao excesso de opiniões e o surpreendente leque de ideias estapafúrdias, também esta semana Jerry Seinfeld veio a público em duas ocasiões diferentes – a primeira em uma entrevista para a rádio ESPN e depois no Late Night com Seth Meyers – comentar a respeito do já exaustivamente discutido politicamente correto. Seinfeld é um dos maiores e mais conhecidos comediantes da história dos Estados Unidos e tem por característica peculiar a tentativa de não utilizar palavrões em sua comédia. Se um humorista com essa qualidade digna apenas de Chaves está reclamando do termo ‘politicamente correto’, talvez seja tempo de sentarmos num cantinho feito criança arteira a pedido da Super Nanny e pensarmos em qual direção exatamente estamos indo.

Antes que alguém se enfureça com esse artigo, antes de comentar, por favor, reveja esse porquinho brincando com um bezerro: http://imgur.com/gallery/ufpAbdG.