A atitude do desesperado

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Antes de ler o texto aí debaixo, você precisa ler esse aqui  HumanoChef – parte 1. É rapidinho, depois é só voltar pra crônica dessa semana.

HumanoChef, Parte IIFinal

Minhas habilidades culinárias só não eram piores do que as pessoais. Não fazia sentido, então, participar de um programa cujo objetivo era avaliar as habilidades culinárias e pessoais. O raciocínio óbvio me acometeu feito Arquimedes gritando eureca. Tomei uma decisão: faria o que existe de pior no ser humano para ser imediatamente desclassificado da competição. Não sem antes, claro, passar pelo processo todo para conseguir um cachê.

A grosseria dos antropochefs eram deliciosamente erradas e divertidas. Semanalmente deliciávamo-nos com todo os participantes do reality humilhados, num afiado 7 a 1 social. Ah, sim – a data virou feriado em 2018. Não perguntem os motivos, mas por muito menos também trocamos a moeda de Real para Euro. Há quem especule: finalmente aceitamos nossa derrota moral.

Eu já imaginava o quanto de material eu teria para futuras crônicas. Era o ambiente perfeito. Raso, de riso fácil, assim como o que eu escrevia. É, quando se está no fundo do poço, a vergonha afrouxa e a autocrítica some tal qual barriga de blogueira fitness.

Sou obrigado a admitir, porém, que apesar dos pratos (eles eram um mero detalhe no programa), a dinâmica antropológica era bem esquematizada. Nem mesmo o maravilhoso steak tartare, que até agora eu nem sei muito bem do que se trata, foi suficiente para apagar o verdadeiro brilho do programa, a dinâmica humana. Entre momentos memoráveis, lembro de alguns:

– Fernanda – Disse a chef Sofía a uma das participantes – su problema como humana é ser muito preguiçosa. Pero vamos que doce você fez hoje.

– Não sou preguiçosa – Rebateu Fernanda, corajosa.

­- És, si. Qual su doce?

– Brigadeiro.

Foi eliminada. Em outra ocasião, foi a vez de Jacques.

– Você, Gabrrriel, é uma bom cozinheirrro, mas tem uma prrroblema. Faz muitas piadas fora de horrra.

– Desculpa, chef.

– Bom, então vamos comerrr cuscuz?

– Não seria melhor com as mãos?

Claro, não durou mais nem um dia no programa.

Os pratos até iam bem, mas os problemas humanísticos não eram perdoados. A crise moral, viam os antropochefs, parecia não ter conserto.

– Pô – Reclamou Empadão – Você fala de si mesmo em terceira pessoa!

– Você, mi querido, buzina em congestionamento. Quieres o quê? Que las personas saiam voando?

– Você não saberrr andarrr na rrrua com guarrrda-chuva. Parrrece uma carrinho de bate-bate. Devia ter o licença de pedestrrre caçado.

Eu já havia recebido meu cachê e já tinha material para crônicas – com o perdão da metáfora culinária – sem sal. Talvez eu me arriscasse até nas tirinhas de crítica social. Pessoal adora compartilhar nas redes até hoje. Já tinha tudo o que eu queria. Fiz, então, o impensável, vil. Quase fui preso, na verdade. Eu sabia que aquilo era inadequado, sem graça, desagradável, irritante, mas era o único jeito de eu arruinar meu lado humano. Tal qual um Dante Alighieri, eu já havia deixado toda esperança para trás. Fui expulso no minuto seguinte. E o que fiz foi simples, mas com requintes de crueldade: compartilhei na minha página pessoal uma foto com vários Minions.

E fui eliminado.