Uma historinha mais ou menos gostosa de se ler

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– Eu não tenho nada para dizer.

– Provavelmente foi assim que o Ultraje fez aquela música famosa deles.

– Qual?

– Aquela que fala do…

– Lembrei! Lembrei.

Juscelino era escritor de livros e colunista de um dos maiores jornais do país. Sofria com uma severa crise e desabafava com seu melhor amigo, Augusto.

– Não é possível que você, um dos maiores escritores desse país, não tenha absolutamente nenhum assunto que queira comentar essa semana.

– Existem vários assuntos que eu quero comentar. Mas tá tudo muito difícil, muito delicado, tem que ter sutileza. Eu me sinto como um rinoceronte numa loja de cristais.

– Calma. Vamos descobrir algo de sutil no reino da Dinamarca.

– Por que tão longe, o Brasil já tá aqui e…

– Não. Juscelino, eu só tava parodiando o nome daquele filme.

– Ah.

– Então, qual a tua praia.

– Camboriú. Adoro Camboriú.

– Quis dizer qual a tua onda.

– Lá eu não pego onda. Por isso eu adoro Camboriú, a água é calma, gostosa…

– Estou querendo perguntar quais assuntos lhe são familiares.

– Ah!

– Entendeu?

– Assuntos que me são familiares.

– Isso!

– Bom, tem a questão da herança da minha bisavó, tem uma tia que tá com uma bursite atacada, tem…

– Não, não, não. Juscelino, o que eu estou perguntando é: sobre quais assuntos você gostaria de escrever?

– Difícil.

– Deixa eu ver. Por que você não escreve sobre o Dunha? Aquele lá da Câmara.

– Ih, mexer com politicagem não é pra mim não.

– Por que você não escreve algum artigo opinativo? Sei lá, sobre qualquer coisa. Pode ser até sobre essa mesinha.

– Opinativo?

– É.

– Muito trabalho. Augusto, o mundo não quer minha opinião. Ou até quer, não sei, mas tem tanta gente melhor por aí. Aliás tem mais gente dando opinião que dinheiro pra caridade. Se fosse o inverso o mundo seria bem melhor.

– Escreve sobre vegetarianismo.

– Adoro carne.

– Feminismo.

– Não tenho propriedade nenhuma.

– Fala sobre amor!

– Amor, que amor. Shakespeare já esgotou tudo faz séculos. Depois de Romeu e Julieta tudo que veio depois é só mais ou menos.

– Absurdo, tanta coisa boa por aí… Bom, por que você não fala sobre aquela sua receita de escovar os dentes com coentro, gengibre e uma folha de hortelã?

– Hm… Sei não…

– Fala sobre seus relacionamentos.

– Relacionamento, Augusto? A última vez que eu recebi um beijo foi na bochecha e da minha avó materna.

– Ah, não é tão ruim.

– Ela morreu já tem uns dez anos.

Uma pausa constrangedora instalou-se no ambiente. Talvez pelo depoimento cruelmente verdadeiro de Juscelino, talvez pelas sucessivas tentativas de Augusto em ajudar o amigo, sem nenhum êxito.

– Sertanejo?

– Jamais.

– WhatsApp. Escreve pros jovens!

– Primeiro que quem fala “jovem” definitivamente não sabe falar com os jovens. E outra, eles lá leem alguma coisa? Só se meu texto cair lá em forma de piada cheio daqueles emoji. O texto fica parecendo livro de colorir pintado por uma criança de dois anos.

– É, aí você me pegou.

– Não, eu te peguei no carnaval de 92.

– Quê?!

– Você não lembra? A gente tava bêbado, na casa da Fátima e…

– Não quis dizer pegar com esse sentido. Eu quis dizer que estamos numa sinuca de bico.

– Oba, posso matar as pares?

– Eu realmente não sei como você se tornou um dos maiores escritores desse país.

– É brincadeira, Augusto. Eu só queria algo leve, divertido, que não fosse ofensivo mas ainda assim tivesse uma crítica.

Mais uma pausa.

– Já sei, Augusto!

Não demorou muito, Juscelino, que estava na frente do computador, apertou vigorosamente a tecla enter.

– Terminei!

– E o que é que você vai mandar pro jornal?

– O roteiro de um episódio do Chaves.

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