Um lugar para chamar de meu

0

Na sala tem mais caixa espalhada que depósito de supermercado. O dia foi cansativo, você precisa dormir, mas não sabe onde exatamente empacotou as fronhas dos travesseiros.

Aos poucos cada objeto encontra seu lugar. A xícara, por exemplo, tal qual um cachorro de rua, dormia enrolada em um monte de jornal velho. Não demora e ela é um dos primeiros objetos a irem para a prateleira. O processo se repete até abrir a última caixa, esvaziada aproximadamente 72 meses depois da primeira.

Faz pouco tempo mudei de apartamento. Não só – mudei também de cidade, de status (passei de estudante a desempregado tão rapidamente que eu passaria despercebido até mesmo no LHC, na Suíça), e, a julgar pelas mudanças radicais, diria até que de planeta.

Quando cheguei, lá já estavam uma geladeira, um sofá e um quadro. Para alguém que vive sozinho como eu, o local já estava praticamente mobiliado. Meu desapego é tão grande que eu seria capaz de morar com o mesmo número de móveis de uma cela do Carandiru.

Mesmo sendo desapegado, eu estranhava tudo aquilo. Era como morar em algum lugar que não era meu e, de fato, não era. O quadro era tão feio que quando eu procurei uma assinatura, não encontrei. Imagino que assim como qualquer outra cagada, ninguém quis se responsabilizar. O sofá tinha cheiro de antigo e estranhamente isso me lembrava minha tia-avó. A geladeira era tão velha que o gelo do freezer provavelmente era o mesmo da Era Glacial.

Quando eu ia dormir, ouvia ainda o barulho de carros, motos e ônibus. Como era ruim ter arranjado um apê logo no primeiro andar! Quando eu sentava no sofá, raramente encontrava uma posição confortável. Quando eu ia tomar banho, fazia com o box assim como eu fazia com a Mega-Sena, sempre acertava a quina.

Nada ali tinha a minha cara, exceto quando eu me olhava no espelho. Ganhei então de presente um bonequinho do Agente Coulson, personagem de um seriado americano e de um filme da Marvel, e que eu acho simplesmente incrível. Ele foi o ponto de partida para que eu sentisse que de fato havia algo de mim naquela casa.

Aos poucos, então, fui me acostumando. Percebi isso quando o barulho da rua já nem me incomodava tanto assim: afinal, ou eu já estava habituado ou estaria perdendo a audição, e como eu ainda odiava ouvir o barulho do despertador pela manhã, só me restou a primeira opção. Comemorei quando não tive que amaldiçoar a quina do box, e quando eu finalmente fiquei confortável no sofá, fiquei na mesma posição uma semana inteira.

Agora aquele sofá é meu. O quadro é meu. O sangue que eu deixei naquela porcaria de quina afiada do box também é meu. Enfim, agora tenho um lugar para chamar de meu.