A bagunça de Babette

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Babette abriu os olhos mas não quis se levantar. Ficou deitada e viu que horas eram, pensando: “já são quase oito e eu vou me ferrar”, e adicionou, “melhor parar de ouvir Legião Urbana”. A menina de 20 anos mal constatara seu atraso e foi conferir suas redes sociais. A pontualidade para chegar à aula não era mais importante que responder as 144 novas mensagens deixadas durante a madrugada em um dos aplicativos. 144. Olhou bem para a tela vez e desistiu, não por preocupação com a insuportável professora da faculdade, mas por mera preguiça. “Esse povo não pode simplesmente dormir?”. Desanimou-se mais ainda com uma triste constatação, a de que as 144 mensagens eram de um único grupo, o das amigas da cidade dela. Ainda tinha que responder as do grupo das meninas da sala, as do Fernando, seu melhor amigo, as do Jorge, um esquisito que ela não fazia ideia de como havia conseguido seu número de celular, as do ex-namorado, que ela não sabia ainda se falava com ele ou não, e as da tia Agnes, que havia mandado uma linda imagem de bom dia que poderia muito bem ter saído de uma apresentação de Power Point.

“Ah, foda-se, eu vou mijar”, foi o pensamento de Babette, capaz de deixar a Glorinha Kalil de cabelo em pé. Antes de se levantar resolveu tirar o celular da tomada. “A noite inteira carregando pra ver se ele aguenta o dia, mas chega 11 da manhã e ele já tá morrendo. Incrível como eu me identifico com esse celular”. Ao puxar o fio sem prestar muita atenção, Babette derrubou o ferro de passar roupa que havia usado no dia anterior na mesma tomada e por ali havia ficado. Ao cair, levou junto o frasco com o facilitador de passar roupa. Este abriu-se e molhou a camiseta suja que Babette havia desleixadamente jogado no chão. “E eu só estou acordada há cinco minutos”.

Levantou-se, ergueu o que havia derrubado e caminhou em direção ao banheiro. O chão do quarto tinha mais roupas que o armário. A última vez que o chão daquele quarto fora visto foi em 2007. Babette andava desviando da bagunça tal qual um soldado na guerra tentando não pisar em nenhuma mina terrestre. Com a falta de destreza de alguém que havia acabado de acordar, tropeçou e saiu xingando. O banheiro igualmente parecia um acampamento de terrorista da Al-Qaeda. A desculpa que dava para si era o fato de que ali nem tinha tanta coisa assim. Afinal, em cima da pia só havia uma coleção de colares, alguns anéis, moedas, seu RG, a CNH, o cartão do banco, o comprovante de compra no cartão, um sem-fim de frascos hidratantes, um condicionador velho, uma caixinha para guardar os anéis (mas que estava vazia, obviamente), uma caixa de sabonetes, três perfumes e a chapinha. O porquê havia um rolo de papel higiênico em cima do espelho, no entanto, continuava um mistério.

pronta para sair, atrapalhou-se mais uma vez. Sem saber qual era a aula do dia, pois havia perdido o calendário impresso com a informação, resolveu levar só o básico. Mas onde estava o básico? “Caneta é igual atendente de loja, quando você mais precisa, some”. “Meu caderno, cadê meu caderno?”, perguntou-se Babette ao levantar um banner do último evento da faculdade que havia promovido, não sem antes tirar de cima uma caixa de sapatos, o telefone fixo e o controle remoto da televisão.

O celular vibrou mais uma vez com aquela peculiar intensidade de uma britadeira descontrolada. Era mais uma mensagem do ex. Haviam compartilhado três anos juntos. Bons, mas eventualmente desequilibrados. Ela se considerava uma menina com mais problemas que um livro de matemática, e era feliz por ter encontrado um cara legal que a compreendesse. Mas tal qual uma receita de bolo mal executada, o relacionamento parecia bom, mas acabou desandando. Não sabia responder qual dos dois havia errado. Teria sido ela, a problemática? A quantidade de erros foi grande a ponto de Babette decidir terminar o relacionamento. Isso acontecera há pouco mais de duas semanas. Ainda não tinha conseguido processar tudo aquilo. Sentia-se confusa, perdida, bamboleava pensando se havia tomado a decisão certa ou não. Chorava, e não sabia se era pelo fim do namoro ou pelo fim do pote de Nutella. Chorava e não sabia se sentia falta do ex ou se eram lágrimas iguais àquelas descritas pelo Paralamas em “Ela Disse Adeus”. Definitivamente não sabia.

Quando desistiu de encontrar seu caderno em meio àquela bagunça, sentenciou, calada: “Não acredito. Eu estou vivendo numa metáfora”.