Degustador de piada

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A internet criou um fenômeno semelhante àquele visto no período de visitações de alienígenas na década de 90. De uma hora para outra todo mundo havia passado por uma experiência com extraterrestres, e as fotos, as provas, pipocavam feito o Araketu quando toca (sim, ainda estou na década de 90). O conteúdo hoje publicado na internet é como aqueles discos voadores, para o qual todo mundo aponta o dedo mesmo sem saber muito bem para onde ou o quê estão apontando exatamente.

Hoje somos soterrados por uma avalanche de comentários que é uma comprovação do ditado popular “cara de quem comeu e não gostou”. Nesse caso, “comentário de quem não viu e não gostou”, ou uma variante, “nem vi e nem gostei”, numa ponte com o passado, remetendo àquela criança que não gostava de jiló mesmo nunca tê-lo experimentado.

Em outras palavras, o especialista em ufologia que estava sempre no programa do Gugu, se metamorfoseou no moderno e já conhecido “comentarista de portal”. Os estudiosos que todo domingo estavam com Augusto Liberato diziam qualquer coisa vagamente profunda sobre um assunto sobre o qual não tinham muita noção. Lembra alguém? Como se fossem Gremlins jogados cachoeira abaixo, se multiplicaram. Basicamente todo conteúdo da internet é como o participante do quadro A Ponte do Rio Que Cai – aquele, do Faustão (e sim, ainda estou nos anos 90) – e os comentaristas são aqueles que ficam metralhando bolas no infeliz que quer atravessar a ponte.

Especialistas de todo e qualquer tema surgiram. Verdadeiros sommeliers de assuntos. Mas um tipo específico me agrada: o sommelier de humor. Ele não curte muito a piada, e ao invés de simplesmente ignorá-la, ele quer bater o martelo se ela é efetivamente boa ou ruim. Ele não sabe simplesmente rir (ou não). Esse sommelier é como se o documentário O Riso dos Outros tivesse se transformado em uma pessoa.

“Essa foi boa”, “essa foi fraca”, “com Deus não se brinca”, “era pra ter graça?”, “prefiro aquele outro humorista”, “esse aí se acha comediante”, são algumas das conclusões finais desses exímios e capacitados degustadores.  Assim como o especialista em vinhos é capaz de cheirar notas de carvalho à distância, o especialista em piadas cheira uma boa a quilômetros.

Gostaria de ver algum dia uma análise mais específica, no momento exato em que eles se assumem efetivamente sommeliers da comédia. Algo como um “Essa piada é boa. Tem um toque de Chico Anysio, mas também senti notas de Jerry Lewis”. “Essa foi boa! Foi envelhecida em barris de Costinha!”. “Hm, essa tá amarrando a boca feito os improvisos do Tomara que Caia”.

E assim seguem, aprovando e reprovando piadas, sem de fato se embriagarem com o vinho que elas realmente gostam.