O cidadão de boas

0

O ser humano está se exaurindo. Nós estamos nos cansando feito dois irmãos que saem no tapa. Um não para até o outro chorar e, quando isso finalmente acontece, nenhum dos dois lembra mais exatamente o motivo de estarem se batendo. Essa é uma descrição de como mais ou menos as pessoas têm se comportado na internet.

Ninguém nunca vai dizer: “não é que você tinha razão? Esse textão que você escreveu de 80 linhas realmente mudou minha opinião”. Todo mundo está se estapeando, com a diferença que nesse ambiente não existe uma mãe para separar a briga dizendo “os dois aí. Chega de briga. Quero paz dentro dessa casa. Fernando, devolve o brinquedo pro seu irmão. Chegamos a um acordo? Ótimo. Porque se eu tiver que voltar nesse quarto a coisa vai ficar feia pros dois”. Talvez se tivéssemos a Mãe Internet assim como temos a Mãe Natureza, as pessoas seriam mais tranquilas online.

Sentindo a carência dessa Mãe Internet, alguns indivíduos não mais queriam ser órfãos e por isso criaram o movimento intitulado “Deboísmo”. O sufixo nos remete quase que imediatamente a uma religião, e, como tal, ao invés de um senhor onipotente e de barbas brancas, vejo a figura central do deboísmo sendo representada como aquela senhora que chega em casa cansada e ainda tem que cuidar dos filhos. E não são quaisquer filhos: são agitados, difíceis de serem controlados, e quando se menos espera já rabiscaram toda a parede e estão pendurados no lustre.

É realmente curioso pensar em tempos tão agressivos a ponto de termos a necessidade de um guia espiritual 2.0, um guru virtual, uma religião da web. É um agrupamento de pessoas dizendo “por que nós não simplesmente continuamos vivendo nossa vida arranjando coisa melhor pra fazer sem precisarmos nos meter em brigas no Facebook?”. É o óbvio do óbvio. Qual o próximo passo? Talvez seja o respirismo, onde um grupo se reúne para dizer: “bom, é melhor que a gente não pare de respirar nunca, o ideal é que nós busquemos sempre ar, caso contrário a gente morre”.

Nosso grande problema é que nunca estamos satisfeitos com nada. O comediante norte-americano Louis CK disse uma vez: “Everything is amazing and nobody is happy”, ou: “Tudo é incrível e ninguém tá feliz”, e traduzi para caso você tenha feito seu pai gastar dinheiro à toa com aquele curso na Wizard. Por que não podemos apreciar as coisas as quais nos agradam? E nem estou falando de nos tornarmos uma legião de Pollyannas, afinal, nem tudo tem um lado positivo, está aí o novo filme do Quarteto Fantástico que não me deixa mentir. Mas, poxa, é realmente necessário 1) gastar dez minutos da sua vida explicando todos os pormenores do porquê você odeia alguma coisa e 2) deixar-se chegar num ponto da necessidade de pertencimento e de ser guiado que você acaba se tornando adepto de uma quase religião cujo messias é um bicho-preguiça?

— Sim, mas veja – alguém pode argumentar – reclamar é humano, beira a necessidade fisiológica. Contribui para aumentar a qualidade daquilo que consumimos. Além disso, o Brasil está em crise. Não dá para achar que tudo é uma maravilha e nós não estamos satisfeitos. Se não estamos é porque não dá.

— Concordo – direi.

— Sério? Você não vai contra-argumentar?

— Nem. Tô de boa.