Total Eclipse of the Opiniões

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Tudo começou na faculdade. Jorginho havia há pouco completado 18 anos quando entrou no site e viu na lista de aprovados o seu nome – mas lá, claro, estava “Jorge”. Jorge. Anos depois, já na psicanálise, culpou essa mesma lista pelo seu amadurecimento precoce. “Poxa, eu era Jorginho, não Jorge”, e a psicanalista completou mentalmente “Sim, com dezoito anos, meu deus”, enquanto ele concluía “Vai se foder, estadual”. Tratava desse assunto pois não sabia exatamente em qual momento tinha mudado. Em breves linhas, foi assim:

Jorginho, agora conhecido pelos colegas e pela lista de aprovados com Jorge, estava no primeiro semestre do curso de jornalismo. Em uma das aulas, timidamente foi sendo apresentado a opiniões as quais não estava muito familiarizado. A princípio era contra uma revista específica, daquelas que todo mundo assina e chega todo domingo em casa. Passou a não gostar dela, e orgulhosamente reclamava dela nas redes sociais tal qual um senhor já senil gritando com crianças no jardim.

Dali a pouco foi um blog. Entrem, aqui tem opiniões confiáveis – era mais ou menos o que ouvia do professor. Aos poucos, naquele ambiente universitário, notou que sua opinião, ao contrário do tamanho das meias de loja de departamento, não era única. Aos poucos entendeu e alegrou-se, como quem finalmente resolve uma complicada equação de Bhaskara pela primeira vez. De repente se viu participando de assembleias e lendo tudo aquilo que lhe era recomendado pelos professores mais experientes.

Saiu da faculdade, mudou de ambientes. Mudou também alguns hábitos de leitura. E percebeu, agora sem a influência de nenhum acadêmico, que talvez aquelas recomendações estavam perdendo um pouco o sentido. Começou a perceber que as contradições, os erros, valiam para os dois lados. Novos tempos chegaram e revelaram facetas que ele facilmente apontava na outra revista, mas agora era na sua. Sentiu-se confuso como o Seu Madruga ao ouvir o Chaves passando um recado, já que “a Dona Florinda disse que o Kiko disse que o Seu Barriga disse que dissesse para o senhor que a Dona Florinda disse…”

Nas redes sociais, passou a seguir de tudo. No Twitter uma salada de opiniões, no Facebook outras tantas, e podia colher pitacos sobre todos os assuntos como quem colhe jabuticabas numa frondosa árvore. Diz o ditado que quando alguém aponta para a lua os imbecis olham para o dedo. Mas para Jorginho eram tantos dedos que nem tinha como ver lua nenhuma.

Não sabia em que momento havia decidido romper com tudo aquilo (e se é que havia). Não tinha favoritos. Assim como não tinha álbum de fotos de pichação poética da cidade também não chamava ninguém de ‘mito’. Não se achava superior, mas também não tinha nada de inferior. Não sabia se o que sentia era muita maturidade ou muita inocência – mas olhou tudo aquilo, encostou-se em uma cadeira e decidiu esperar pelo eclipse.