A designação de ‘terroristas’ para os novos governantes da Síria precisará ser reavaliada, afirma o enviado da ONU.

Comunicado de imprensa

**A designação de ‘terroristas’ para os novos governantes da Síria precisará ser reavaliada, afirma o enviado da ONU**

O conflito sírio, que teve início em 2011, transformou o país em um tabuleiro de xadrez de interesses geopolíticos e diferenças sectárias. Com o crescimento de facções armadas, como o Estado Islâmico e outros grupos islamitas, a questão da designação de ‘terroristas’ ganhou destaque nas discussões internacionais. Recentemente, Geir Pedersen, o enviado especial da ONU para a Síria, enfatizou que a rotulação dos novos líderes que surgem em meio ao confronto deve ser reavaliada, colocando em dúvida a visão simplista que se tem sobre essas organizações.

Historicamente, a Síria sempre foi um complexo mosaico de etnias e religiões, do qual emerge uma luta pelo poder que frequentemente se confunde com uma luta por identidade. Após o início da Primavera Árabe, a resposta violenta do regime de Bashar al-Assad às manifestações pacíficas levou a uma escalada de violência. O governo Assad, sustentado por suas alianças com o Irã e a Rússia, respondeu a seus opositores com repressão brutal, forçando muitos a se armarem e, consequentemente, a fragmentar a oposição em várias facções, tornando a situação ainda mais volátil.

Conforme o conflito se prolongava, grupos fundamentalistas começaram a ganhar proeminência, incluindo o exército sírio livre que, em sua luta contra Assad, fez alianças com outras facções que nem sempre compartilhavam do mesmo comprometimento com os direitos humanos ou valores democráticos. Dentre esses grupos, diversos foram rotulados como ‘terroristas’ não apenas por suas táticas, mas também por suas agendas ideológicas. O avanço do Hay’at Tahrir al-Sham, um grupo jihadista que surgiu como uma das principais forças anti-Assad, levanta questões essenciais sobre a governança e o futuro da Síria.

Pedersen destaca que a abordagem ocidental tradicional de categorizar grupos como ‘terroristas’ ou ‘moderados’ pode estar desatualizada. Tal classificação ignora a complexidade da situação no terreno e as nuances que definem cada grupo e seus interesses. O futuro da Síria pode depender da inclusão de diversos atores no diálogo político, mesmo aqueles que podem ter sido rotulados como extremistas, uma vez que muitos deles representam importantes segmentos da população, que buscam não apenas a derrubada do regime, mas também a formação de um governo que atenda suas necessidades.

A discussão sobre a designação de ‘terroristas’ também suscita reflexões sobre como a comunidade internacional deve lidar com esses grupos no contexto da diplomacia e reconstrução do país. A perspectiva de reavaliar a classificação de grupos pode abrir caminho para negociações mais eficazes, embora o desafio seja monumental.

Assim, a afirmação de Pedersen é um apelo a uma abordagem mais profunda e pragmática das realidades sírias. Reconhecer que a Síria não é apenas um campo de batalha entre ‘bons’ e ‘maus’ traz à tona a necessidade de um diálogo abrangente que pode ser a única saída viável para um futuro pacífico e estável neste país marcado pela guerra.