Nos últimos dias, os serviços públicos de saúde em Lisboa têm sido fortemente afetados pela greve dos médicos, que se estendeu por várias unidades hospitalares e centros de saúde da capital. A paralisação, convocada por sindicatos do setor, visa reivindicar melhores condições de trabalho, aumentos salariais e uma maior valorização das carreiras médicas no Sistema Nacional de Saúde (SNS). A interrupção dos serviços essenciais está a causar perturbações significativas no atendimento aos utentes, gerando preocupações quanto à resposta do SNS em tempos de elevada procura, como o que se vive atualmente.
Motivos da greve: reivindicações dos médicos
Os sindicatos dos médicos, liderados pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e pelo Sindicato Independente dos Médicos (SIM), apontam várias razões para a convocação da greve. Entre as principais reivindicações está a necessidade urgente de revisão das tabelas salariais, que os profissionais consideram desatualizadas e insuficientes para fazer face ao aumento do custo de vida, sobretudo nas áreas metropolitanas como Lisboa.
Adicionalmente, os médicos exigem a redução das cargas horárias excessivas e melhores condições laborais, incluindo mais recursos humanos para garantir a prestação de cuidados de saúde de qualidade. “Estamos a trabalhar em condições desumanas, com turnos exaustivos e um número insuficiente de profissionais, o que prejudica o atendimento aos utentes e afeta a nossa saúde física e mental”, afirmou Ana Paula Santos, médica de família e representante sindical. Segundo os sindicatos, o cansaço acumulado e a falta de reconhecimento são fatores que contribuem para a saída de muitos médicos do SNS, com consequências diretas no atendimento à população.
Impacto nos serviços de saúde
Durante os dias da greve, os hospitais e centros de saúde da região de Lisboa têm vindo a funcionar de forma limitada, com a suspensão de consultas programadas e a restrição de alguns serviços não urgentes. No Hospital de Santa Maria, um dos maiores do país, várias consultas de especialidade foram adiadas, afetando centenas de utentes. “Estava com uma consulta marcada há seis meses e agora fui informado de que foi adiada sem previsão de nova data”, lamentou Manuel Costa, um dos muitos utentes afetados pela greve.
Os serviços de urgência continuam a funcionar, mas com limitações devido à falta de profissionais, o que tem levado ao aumento do tempo de espera para o atendimento. “Estamos a garantir os serviços mínimos, como manda a lei, mas há uma sobrecarga nos serviços de urgência, e isso aumenta o risco de erros e compromete a qualidade dos cuidados prestados”, explicou um dos médicos em serviço no Hospital de São José.
O impacto também é sentido nos centros de saúde, onde a falta de médicos está a afetar a marcação de consultas de rotina e a realização de exames médicos. Em várias unidades, os atendimentos são limitados a situações de emergência, o que está a gerar filas e aglomerações nos serviços de urgência hospitalar, já sobrecarregados.
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Reações do governo e da população
Perante o impasse entre os médicos e o governo, o Ministério da Saúde reiterou a sua disponibilidade para dialogar com os representantes sindicais, mas defende que já foram feitos progressos significativos nas negociações, nomeadamente com a introdução de medidas para a valorização da carreira médica. Marta Temido, ministra da Saúde, sublinhou que o governo está “aberto ao diálogo” e que tem trabalhado para encontrar soluções que permitam melhorar as condições no SNS, mas alertou para os constrangimentos orçamentais que limitam algumas das exigências dos sindicatos.
“Reconhecemos as reivindicações legítimas dos médicos, mas é importante que as negociações prossigam de forma construtiva e que se encontrem compromissos realistas que não coloquem em causa o equilíbrio financeiro do SNS”, afirmou a ministra.
No entanto, a população, que tem sido a mais prejudicada pela paralisação dos serviços, manifesta sentimentos mistos. Enquanto alguns entendem as razões da greve e apoiam os profissionais de saúde, outros criticam a interrupção dos serviços num momento em que o sistema de saúde já enfrenta dificuldades. “Percebo que os médicos queiram melhores condições, mas não podemos ser sempre nós, os utentes, a pagar o preço. Já é difícil conseguir uma consulta, agora com a greve tudo piora”, desabafou Teresa Martins, utente de um centro de saúde em Lisboa.
Consequências a longo prazo
As greves no setor da saúde em Portugal não são novidade, mas o que preocupa neste caso é a possível escalada do conflito, caso as negociações não avancem. A saída de profissionais do SNS, que buscam melhores condições no setor privado ou no estrangeiro, é uma realidade que tem fragilizado o sistema público. Os sindicatos alertam para um agravamento desta situação, caso o governo não tome medidas urgentes para atrair e reter médicos no setor público.
“Se continuarmos a ver a saída de médicos do SNS, quem vai sofrer são os utentes, que terão cada vez menos acesso a cuidados de saúde de qualidade”, advertiu o secretário-geral do SIM, Jorge Roque da Cunha.
Além disso, as constantes interrupções nos serviços de saúde podem criar uma sensação de insegurança entre a população, que começa a perder confiança na capacidade do SNS de prestar cuidados eficientes. “A crise no SNS não é só um problema dos médicos, é um problema de todos nós, porque estamos a falar do direito básico à saúde”, frisou Ana Paula Santos, da FNAM
Resumo
A greve dos médicos em Lisboa expõe as fragilidades do Sistema Nacional de Saúde e a necessidade urgente de reformas que garantam condições dignas para os profissionais e um atendimento de qualidade para os utentes. A pressão sobre o governo para encontrar soluções é crescente, mas o caminho até um acordo ainda parece longo. Enquanto isso, milhares de utentes continuam à espera de respostas e cuidados, numa altura em que o acesso à saúde é mais importante do que nunca.