Recentes investigações levantam suspeitas sobre a autenticidade de um manuscrito, amplamente associado à tradição da doçaria conventual em Portugal, que pode ter sido falsificado. O documento, há tempos considerado uma das bases para o estudo e divulgação dessa rica herança gastronômica, está agora sob o escrutínio de especialistas que questionam sua veracidade e sua verdadeira origem.
O Manuscrito e Sua Importância
O manuscrito em questão foi descoberto no final do século XIX e, desde então, tem sido apresentado como um registro crucial de receitas doces conventuais criadas por freiras durante os séculos XVII e XVIII. Muitas dessas receitas, hoje famosas em todo o país, são apreciadas não apenas pelo seu sabor, mas também pela história religiosa e cultural que as cerca. O documento seria uma espécie de compêndio de segredos culinários guardados em conventos de diversas ordens religiosas, com um foco especial nas receitas que utilizam ovos, açúcar e amêndoas, ingredientes comuns na doçaria conventual.
Ao longo dos anos, historiadores, chefs e entusiastas da gastronomia acreditaram que o manuscrito trazia à tona a verdadeira origem de algumas das mais icônicas sobremesas portuguesas, como o Pão de Ló, as Trouxas de Ovos e os Pastéis de Santa Clara. Sua autenticidade era raramente questionada, e ele foi amplamente utilizado como uma referência em publicações acadêmicas e festivais gastronômicos dedicados ao tema.
A Controvérsia
A recente polêmica surgiu quando especialistas em paleografia e historiadores da alimentação, revisando o documento com ferramentas e métodos modernos, notaram inconsistências em vários aspectos do manuscrito. Em primeiro lugar, a caligrafia e o estilo de escrita levantaram suspeitas. Embora o documento seja supostamente datado do século XVII, a forma de algumas letras e a estrutura das frases são atípicas para o período, sugerindo que ele pode ter sido escrito em uma data muito posterior.
Além disso, testes de laboratório realizados no papel e na tinta utilizados no manuscrito indicaram que os materiais não condizem com os utilizados no século XVII. Esses resultados, embora ainda preliminares, apontam para a possibilidade de que o documento tenha sido criado no final do século XIX ou início do século XX, possivelmente como uma tentativa de reviver ou inventar tradições gastronômicas associadas aos conventos portugueses.
A Reação dos Especialistas
A descoberta causou surpresa e descontentamento entre muitos estudiosos da história da alimentação em Portugal. O historiador gastronômico João Nunes, que dedicou boa parte de sua carreira ao estudo da doçaria conventual, manifestou-se de forma cautelosa, destacando que “é prematuro tirar conclusões definitivas até que todos os testes e análises sejam concluídos”. Nunes reconheceu, no entanto, que as evidências até agora apresentadas “são preocupantes” e podem exigir uma reavaliação de certos aspectos da história da doçaria em Portugal.
Por outro lado, chefes de cozinha e confeiteiros que se inspiraram no manuscrito também expressaram preocupação. Muitos desses profissionais, que incorporaram as receitas e técnicas descritas no documento em seus trabalhos, agora se veem diante da possibilidade de que a herança culinária que celebravam possa não ter as raízes históricas que acreditavam. “Sempre foi uma honra trabalhar com essas receitas, pensando que estávamos mantendo viva uma tradição de séculos”, comentou a chef Maria de Lourdes, conhecida por suas recriações de doces conventuais. “Se for provado que o documento é uma falsificação, será um golpe para nossa história culinária.”
O Impacto na Cultura Gastronômica
A doçaria conventual ocupa um lugar especial na cultura portuguesa, sendo muitas vezes vista como um elo entre a história religiosa do país e suas tradições culinárias. As freiras dos conventos, que tinham acesso a grandes quantidades de gemas de ovos (com as claras sendo utilizadas para engomar roupas e fazer vinho), criaram receitas doces sofisticadas, muitas das quais sobreviveram ao longo dos séculos e se tornaram parte integrante das celebrações e festividades em Portugal.
Se for confirmado que o manuscrito é de fato falso, isso não apenas mudará a forma como entendemos a origem dessas receitas, mas também poderá ter um impacto significativo no turismo gastronômico em torno das tradições conventuais. Cidades como Alcobaça, Évora e Coimbra, famosas por seus doces conventuais, dependem em grande parte dessa herança culinária para atrair turistas.
Entretanto, mesmo que o manuscrito seja desacreditado, muitos estudiosos acreditam que a tradição da doçaria conventual continuará a ser celebrada, uma vez que há registros históricos incontestáveis de que as freiras realmente desempenharam um papel fundamental na criação dessas iguarias. “Este manuscrito é apenas uma peça do quebra-cabeça”, afirmou a historiadora Inês Rodrigues. “Ainda há muitos outros documentos e fontes que comprovam a contribuição dos conventos para a nossa doçaria. A história não será apagada por um único documento.”
Próximos Passos
As investigações sobre a autenticidade do manuscrito continuam, com novos exames paleográficos e laboratoriais sendo conduzidos. As autoridades culturais também estão envolvidas, buscando garantir que quaisquer conclusões futuras sejam amplamente divulgadas e compreendidas, tanto pelo público em geral quanto pelos estudiosos da área.
Este episódio também levantou discussões mais amplas sobre a necessidade de uma verificação mais rigorosa dos documentos históricos, especialmente aqueles que desempenham um papel tão importante na construção de narrativas culturais e identitárias. A questão agora é saber até que ponto o manuscrito influenciou nossa percepção da doçaria conventual e se ele pode ter sido responsável por criar ou perpetuar mitos em torno dessa tradição.