Auriculado, pseudônimo de Augusto de Souza, foi um poeta português do século XX cuja obra literária tem despertado crescente interesse no meio acadêmico e entre os leitores de poesia contemporânea. Nascido em Lisboa, em 1930, Auriculado desenvolveu uma trajetória poética marcada pela introspeção, pela linguagem minimalista e pelo compromisso com temas existenciais, como a solidão, o silêncio e a efemeridade da vida.
Embora sua produção literária não tenha obtido grande projeção pública durante sua vida, o reconhecimento póstumo de sua obra tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Críticos e estudiosos literários apontam que sua poesia oferece uma visão única e profunda da condição humana, marcada por uma simplicidade expressiva que reflete o desejo de comunicar o essencial.
Trajetória de vida e influência literária
Auriculado nasceu e cresceu em Lisboa, em uma família de classe média. Desde cedo, demonstrou uma grande sensibilidade para a literatura, dedicando-se à leitura de autores portugueses clássicos, como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. No entanto, foi na poesia francesa, em particular nas obras de Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, que Auriculado encontrou uma forte influência, que moldaria sua visão literária e estética ao longo de sua vida.
Apesar de sua inclinação literária, Auriculado nunca seguiu uma carreira profissional no campo das letras. Formou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e exerceu a advocacia até à sua aposentadoria. Contudo, a poesia sempre ocupou um lugar central em sua vida. Escrevia constantemente, ainda que sem a pretensão de publicar suas obras em vida. Muitos de seus poemas permaneceram inéditos até sua morte em 1995.
A escolha do pseudônimo e o afastamento do público
O nome “Auriculado” surgiu de uma experiência pessoal. Conta-se que o poeta sofria de um problema de audição desde jovem, o que o levou a isolar-se, evitando, em grande parte, o convívio social. Esse afastamento do mundo exterior contribuiu para a criação de uma poesia profundamente introspectiva, onde a ausência de som e o silêncio ganham uma relevância ímpar.
Auriculado manteve-se, durante a maior parte de sua vida, longe dos holofotes e das rodas literárias de sua época. Embora não rejeitasse a publicação de sua obra, o poeta nunca fez grandes esforços para que seus textos alcançassem um público maior. Publicou apenas dois pequenos volumes de poesia, ambos em edições limitadas e distribuídos entre amigos e colegas próximos. Sua aversão à fama e ao reconhecimento público fez com que sua obra permanecesse desconhecida do grande público até a última década.
Redescoberta e análise da obra
A redescoberta da obra de Auriculado começou no início dos anos 2000, quando um pequeno grupo de estudiosos de poesia contemporânea em Portugal começou a investigar e a divulgar os seus textos. Publicações póstumas, organizadas por sua família e por editoras independentes, trouxeram à luz uma série de poemas inéditos, muitos dos quais foram encontrados em cadernos e manuscritos deixados em sua casa.
Sua poesia é marcada pela economia de palavras e por uma sensibilidade aguda para o silêncio e o vazio. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Auriculado optou por uma linguagem despojada, quase minimalista, focada na exploração de sentimentos interiores e na observação da passagem do tempo. Em sua obra, o poeta parece buscar, não uma resposta para as grandes questões da vida, mas sim uma aceitação da incerteza e da fragilidade da existência.
Entre seus temas recorrentes estão a solidão, a relação do ser humano com a natureza, a transitoriedade da vida e a busca por um sentido que muitas vezes se revela inalcançável. Os críticos literários têm comparado sua obra à de outros poetas portugueses mais conhecidos, como Ruy Belo e Herberto Helder, pela profundidade filosófica e pela forma como Auriculado utiliza o vazio como um elemento central de sua poesia.
Obras publicadas e legado
As duas principais obras publicadas por Auriculado durante sua vida foram “Silêncios Perdidos” (1971) e “O Vazio das Palavras” (1983). Ambos os livros tiveram tiragens muito limitadas e são hoje considerados raridades no mercado de colecionadores de livros. Neles, o poeta explora o conceito de silêncio não apenas como ausência de som, mas como uma presença tangível, que define o ritmo e o significado de sua escrita.
Após a sua morte, a família do poeta permitiu a publicação de outros trabalhos inéditos, incluindo a coletânea “Poemas de uma vida não ouvida”, lançada em 2005, e a obra póstuma “Ecos do Silêncio”, publicada em 2010. Estas obras foram fundamentais para a consolidação de Auriculado no panorama da poesia portuguesa, sendo reconhecido como uma voz singular e necessária, sobretudo num tempo em que o excesso de informações e palavras parece ter obscurecido a simplicidade e o poder do silêncio.
O legado de Auriculado é, hoje, estudado em várias universidades portuguesas e seus poemas têm sido incluídos em antologias de poesia contemporânea. Embora continue a ser uma figura relativamente desconhecida para o grande público, o interesse em sua obra tem vindo a crescer, especialmente entre leitores que buscam uma poesia que, na sua aparente simplicidade, esconde uma profundidade emocional e filosófica.
Uma poesia de introspeção
Auriculado definiu a sua própria obra como “uma busca constante pelo que não pode ser dito”. Esta afirmação encapsula a essência de sua poesia, onde o não-dito, o silêncio e o vazio falam tanto quanto as palavras. Seus poemas, muitos dos quais são extremamente curtos, concentram-se na ideia de que há algo de intrinsecamente inefável na experiência humana, algo que as palavras, por mais poderosas que sejam, não podem capturar completamente.
Apesar de sua discrição em vida, a obra de Auriculado continua a ecoar nos círculos literários e entre leitores que encontram em sua poesia uma forma única de expressar o inexpressável. Seus poemas permanecem como um testemunho de uma vida vivida à margem, em busca do sentido na ausência de som e no espaço entre as palavras.